“ANGU” VOLTA À CENA NO TEATRO FIRJAN SESI CENTRO

por | março 14, 2024

Escrito e dirigido por Rodrigo França, montagem encenada por Alexandre Paz e João Mabial encerra estereótipos e apresenta histórias passíveis e possíveis de pessoas pretas gays em temporada popular.

Após uma bem-sucedida temporada de estreia em 2023, o espetáculo “Angu” volta à cena no Rio de Janeiro em temporada popular. Entre os dias 18 de março e 23 de abril, sempre às segundas e terças-feiras às 19h, a montagem escrita e dirigida por Rodrigo França subirá ao palco do Teatro Firjan Sesi Centro apresentando seis histórias paralelas vivenciadas por pessoas negras gays – ou “bixas pretas”. Com Alexandre Paz e João Mabial no elenco, a peça subverte o olhar social fetichista que objetifica, coisifica, criminaliza e hiperssexualiza as bixas pretas. Para além das denúncias das violências que atingem esta camada da população, a montagem também celebra e agradece ícones como Madame SatãGilberto França; o bailarino Reinaldo PepêRolando Faria e Luiz Antônio (Queer Les Étoiles) e Jorge Laffond.

“Retratamos pessoas que só desejam ser o que realmente são. Reforço a palavra ‘pessoas’, pois algumas são tão marginalizadas, que a sociedade não as identifica assim. Ainda há luta para o básico, para se ter dignidade. Mesmo ficcional, são vidas expostas colocando as nuances e subjetividades necessárias, para buscar a humanidade. A peça é um grito. Não necessariamente de socorro, porque acima de tudo existe potência, amor, desejo e intensidade na vida. O espetáculo é um Ebó. Que saiamos do teatro limpos e reequilibrados daquilo que nos oprime, nos aliena, nos engessa de sonhar. Que o Angu nos alimente de reflexões e nos fortaleça de axé”, vibra Rodrigo França.

A ideia do espetáculo nasceu da vontade de falar sobre liberdade e sobre as pessoas que só desejam ser felizes, mas são impedidas porque a busca dessa felicidade tem a ver com liberdade de ser o que se é. “E a liberdade alheia atormenta muita gente. Sendo eu um homem preto e gay, olho pra minha própria existência e me deparo com as lutas que enfrentei buscando ser livre. Dessa auto investigação, surge o desejo de enaltecer esses corpos. Celebrar a nós, bixas pretas, homens gays pretos, que lutamos para afirmar e gozar da nossa existência nesse mundo”, pontua Alexandre Paz, idealizador do projeto ao lado de Nina da Costa Reis.

Em cena, personagens subvertem o esperado: a não-performance do homem negro com a sua masculinidade ultra, mega viril e heteronormativa. Um sargento da Polícia Militar que honra a sua farda, mas tem a sua sexualidade como alvo de piadas para seus colegas; um jovem estudante de enfermagem que se deslumbra com a classe média branca e deseja ser por ela incluído, porém, é somente hiperssexualizado; o sonhador que fica diariamente sentado no banco da rodoviária e se envolve numa tarde de amor em um banheiro público; o menino encantando com o que dizem do seu tio Gilberto, um homem negro gay que desapareceu no mundo para fazer a sua arte longe da família homofóbica; Madame Satã – transformista que teve que largar a arte para viver à margem como malandro da Lapa; e uma homenagem ao Les Étoiles, icônica dupla queer negra brasileira que abriu as portas da Europa para a MPB.

Abordando essas referências artísticas da negritude, a montagem realiza uma espécie de resgate da ancestralidade preta e gay. “O sonho de Madame Satã era ser artista, mas a sociedade não deixou. Nele só se enxergava a violência, porque é o esperado para as pessoas negras. Principalmente quando se é gay. Esta interseccionalidade é demais para um país racista e LGBTQIAPN+fóbico como o nosso. O público vai encontrar um espetáculo muito sincero, para rir e se emocionar, com muita dignidade em cada personagem. Vamos ver um pouco de muita gente que só gostaria de ser feliz, mas não é uma tarefa simples, pois ser bixa preta consterna muita gente. Mesmo assim, vale a pena ser o que é”, reflete João Mabial.

“Ser bixa preta coloca caroço no angu de muita gente, daí o nome da montagem”, revela Rodrigo França. “E angu é ancestral, é aquela comida que mata a fome de quem luta pra ser livre. É alimento. Corpo vazio não fica em pé. E a gente tem fome de viver e ser! Debaixo desse angu tem carne!”, complementa Alexandre. Se a plateia irá curiosa pelo nome apetitoso, não se sabe, mas o desejo de Rodrigo é que elas saiam modificadas pela sua receita cênica. “Existe uma provocação para o espectador olhar para si e pensar no todo. Acho um luxo a possibilidade do público sair diferente de como entrou no teatro. Tento fazer com que as pessoas saiam da zona de conforto. Eu não saberia fazer arte sem relevância social. Sou da filosofia, tenho uma necessidade de provocar reflexões. Creio que a arte deva ocupar este lugar”, encerra França.

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