Exposição ‘Pequenas Áfricas’, no IMS Paulista, investiga as origens e transformações do samba urbano no Rio de Janeiro

por | novembro 6, 2023

O IMS Paulista inaugurou a exposição Pequenas Áfricas: o Rio que o samba inventou. A exposição reconstitui a cena cultural carioca, a partir do começo do século 20, na qual as comunidades afrodescendentes criaram o samba urbano. A mostra aborda as complexas redes de trabalho, solidariedade e espiritualidade construídas nesse período histórico, além de suas reverberações no presente, das escolas de samba aos terreiros e quintais. A curadoria da exposição é dos historiadores e professores Angélica Ferrarez, Luiz Antonio Simas, Vinícius Natal e Ynaê Lopes dos Santos. A expografia é assinada pela arquiteta Gabriela de Matos.

Dividida em dois andares, a exposição reúne aproximadamente 380 itens, entre documentosgravações musicais, fotografias, matérias de jornais, filmes e obras de arte, provenientes do acervo do IMS e de outras instituições. A mostra faz alusão ao termo “Pequena África”, cunhado pelo artista Heitor dos Prazeres para se referir à região da Zona Portuária do Rio, que, no começo do século 20, concentrava uma numerosa população afrodescendente. Na exposição, no entanto, o termo é pensado enquanto construção política e expandido para outras regiões da cidade.

Os Oito Batutas: Jacó Palmieri, Donga, José Alves, Nelson Alves, Raul Palmieri, Luís de Oliveira, China e Pixinguinha, 1919. Autoria não identificada. Coleção José Ramos Tinhorão/Acervo IMS.

A curadoria comenta o recorte: “A partir da Pequena África histórica, propomos um percurso pelas Pequenas Áfricas que a ela se sucederam, menos um lugar do que um conjunto de práticas consagradas àquele modo de vida. Uma ideia pulsante em núcleos de resistência e ação sustentados por referências e valores de um Rio de Janeiro negro, para além dos clichês que se confundem com a imagem oficial da cidade.”

O primeiro andar da mostra adota um viés histórico, apresentando a região onde o samba urbano se originou e suas mudanças ao longo do tempo. O percurso se inicia no Cais do Valongo. Tido como o maior porto escravista da história, o complexo do cais recebeu cerca de 1 milhão de africanos escravizados, vindos forçados para o Rio de Janeiro. Inteiramente aterrado nas reformas urbanísticas do início do século 20, foi redescoberto durante escavações em 2011 e reconhecido pela Unesco como Patrimônio da Humanidade em 2017.

Na entrada da exposição, o público ouvirá uma gravação em áudio na qual o ator Hilton Cobra lê anúncios de venda e compra de pessoas escravizadas, retirados do Diário do Rio de Janeiro, entre 1821 e 1831. A leitura dá a dimensão da violência que imperava na sociedade colonial e neste território em especial, onde, posteriormente, as populações escravizadas reinventaram suas vidas e culturas. Neste primeiro núcleo, os visitantes também encontram um painel de monotipias do artista Carlos Vergara, feito a partir de fragmentos da escavação do Valongo. Utilizando terra e outros materiais encontrados no local, Vergara imprimiu nas telas os contornos das pedras pisadas pelos sujeitos escravizados e por seus algozes.

Os Oito Batutas: Jacó Palmieri, Donga, José Alves, Nelson Alves, Raul Palmieri, Luís de Oliveira, China e Pixinguinha, 1919. Autoria não identificada. Coleção José Ramos Tinhorão/Acervo IMS.

Outra obra presente neste núcleo é Proteção aos ancestrais (2023), de Mãe Celina de Xango, figura essencial nos processos de escavação do Valongo. Comissionada para a mostra, a instalação é composta por uma série de plantas naturais utilizadas nos rituais de candomblé, como espada-de-iansã e lança-de-ogum. A obra remete à ideia de purificação, funcionando como um ritual de passagem da dor para a celebração da vida. Ainda neste núcleo, estão fotos do sítio arqueológico do Valongo feitas em 2023 pelo fotógrafo Walter Firmo.

A partir da década de 1930, compor, tocar e cantar samba deixou de ser delito para se tornar profissão. Ainda que longe das condições de igualdade com elencos dominados por cantores e músicos brancos, os artistas criados nas rodas e nos terreiros se tornaram presença ostensiva em estúdios de rádio e gravação. A mostra destaca figuras essenciais nessa história, como Donga, Pixinguinha, Heitor dos Prazeres, Clementina de Jesus, João da Baiana, Cartola, entre tantas outras. São exibidos documentos e itens como o violão de Donga, a partitura de “Pelo telefone”, considerado o primeiro samba gravado do Brasil, o passaporte e o contrato de Pixinguinha com a gravadora Victor, registros e reportagens sobre a turnê feita pelos Oito Batutas em Paris em 1922, além de pinturas de autoria de Heitor dos Prazeres.

A exposição também evidencia a atuação central das Tias na construção do universo do samba. Mulheres negras e mais velhas em sua maioria, a primeira geração de Tias chegou ao Rio de Janeiro em meados do século 19 provinda da Bahia. Eram rezadeiras, cozinheiras e quituteiras que exerciam papéis de liderança em suas comunidades. Com o passar das gerações, tornaram-se cada vez mais ligadas às escolas de samba. A partir de fotografias, livros, reportagens e depoimentos, a exposição trata da trajetória de nomes centrais, como Tia Ciata, Tia Amélia, Tia Dodô e Tia Lúcia.

 

Serviço

Pequenas Áfricas: o Rio que o samba inventou
Inauguração: sábado (28 de outubro)
Visitação: até 21 de abril de 2024
IMS Paulista, 7o e 8o andar | Entrada gratuita

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