Musical inédito, “Os Bruzundangas” estreia no CCBB RJ

por | abril 8, 2024

Primeira adaptação do livro de Lima Barreto para o teatro, a montagem apresenta a atualidade das críticas sociais realizadas pelo autor há 100 anos sob direção de Dani Ornellas e Renato Carrera e direção musical de Maíra Freitas.

Quando Renato Carrera e Dani Ornellas decidiram oficializar sua companhia de teatro, o nome ainda não havia surgido – e nem tampouco o texto que faria essa estreia. Lima Barreto (1881-1922), então, se apresentou, saltando o livro “Os Bruzundangas” da prateleira de uma livraria para Renato, que leu a obra, se apaixonou e decidiu montá-la. Assim começou a história que deu nome à Bruzun Company, composta ainda por Hugo Germano e Jean Marcell Gatti, e os direcionou ao musical “Os Bruzundangas”, montagem inédita dirigida por Dani e Renato que estreia dia 11 de abril de 2024 às 19h no Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro.

Primeira adaptação da célebre literatura de Lima para o teatro, a peça é uma comédia satírica que bebe da fonte do teatro de revista, apresentando a vida brasileira nos primeiros anos da Primeira República com números de vedetes, questões políticas e canções, unido a uma dramaturgia que foi formatada através de várias crônicas sobre o mesmo assunto: a temática social brasileira sob um viés político. Bruzundanga é um país fictício, com o qual o nosso Brasil tem afinidades – diversos problemas sociais, econômicos e culturais. Em cena, os quatro atores cantam, dançam e interpretam suas aventuras através da ironia tipicamente carioca, embaladas por canções originais cantadas ao vivo.

“Este texto endossa uma questão muito nossa, da nossa língua, nossa brasilidade, nossa realidade, e com humor. Lemos o livro inteiro, juntos e em voz alta, pra entender o que daria pra transformar em dramaturgia a partir de um livro que é composto por crônicas do começo do século XX. Trabalhamos sempre em cima do ator e da palavra, compreendendo a fala daquela época, realizando uma pesquisa consciente do que falamos em cena. É mágico montar este texto e ter sua encenação estreando nos palcos do CCBB, que fica numa região onde o Lima Barreto, que era carioca, viveu. Andamos pelas ruas da região pensando que ele circulava por aqui, como nós fazemos hoje. É a mesma ambiência, mas 100 anos depois”, observa Renato Carrera.

Publicada postumamente em 1922, a obra de Lima contempla, sobretudo, a temática social, privilegiando os pobres, os boêmios e os arruinados, assim como a sátira que criticava de maneira sagaz e bem-humorada os vícios e corrupções da sociedade e da política. E este perfil veio ao encontro da demanda da companhia, que busca mostrar Lima Barreto de uma forma que ele não costuma ser mostrado.

Foto: Roberto Carneiro

“Não vemos uma foto do Lima sorrindo, por exemplo, só se fala que ele era alcóolatra e coisas do tipo, sendo que ele é um dos nossos maiores escritores. Na minha infância eu passava com meus pais pela porta do CCBB sem adentrar o espaço, que parecia não ser feito para pessoas como nós. Eu sou uma mulher preta e hoje estar estreando na direção teatral, com esta peça e neste teatro, sinto como um reforço do meu propósito de dar voz aos meus pais, que hoje já não estão aqui em matéria, e a tantas outras pessoas pretas e indígenas que foram enterradas no entorno deste prédio e nele não puderam entrar. É muito significativo pra mim”, pondera Dani Ornellas.

À frente da direção musical, Maíra Freitas traz um colorido à encenação, onde imprime seu ritmo para as letras de… Lima Barreto. “De todas as letras, a única composta por mim é a que abre a montagem. Todas as demais foram tiradas de frases do livro, buscando a rima e a coerência de ideias exprimidas por Lima”, revela Carrera. “E quando a gente fala em musical o pensamento vai na Broadway, né? Mas como podemos pensar nisso se a terra primeira, onde nasceu a música, foi a África, território onde, até hoje, as crianças trabalham o movimento corporal desde muito cedo? Então desconstruir a ideia de um musical eurocêntrico e americano, e conseguir fazer a música brasileira ressoar em corpos brasileiros me interessa como musical”, complementa Ornellas, que acredita que as canções de Maíra Freitas respaldam esta ideia.

“Eu gosto de fazer a música partindo da letra, já temos alguma coisa resolvida e vamos ajeitando pra caber na música. A ideia está ali e o desafio é escolher as palavras mais importantes, o que vamos sublinhar, onde a melodia fica mais aguda ou mais grave, onde acontece aquele momento que faz as pessoas pensarem. E várias músicas da peça tem isso. Pra mim, música é educação, é o rito mais fácil pra ensinar. Falar simples, falar pouco, fazendo todo mundo cantar e entender o que você quer”, pontua Maíra, que levou em conta ritmos da época em sua composição. “Tem momentos de ser bem temporal, mas passando pelos ritmos brasileiros e passando por esses 100 anos de ritmos brasileiros, assim como tem o livro de Lima Barreto”, finaliza a diretora musical, cantora e compositora.

AGENDA:

Teatro II

Temporada: 11 de abril a 19 de maio de 2024

Quinta a sábado às 19h | Domingo às 18h

Inteira: R$ 30 | Meia: R$ 15, disponíveis na bilheteria física ou no site do CCBB (bb.com.br/cultura)

Estudantes, maiores de 65 anos e Clientes Ourocard pagam meia entrada

Classificação indicativa | 12 Anos

Duração | 90 min

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