“Preto Tá Na Moda”: Uma conversa com Cleissa Regina Martins, primeira roteirista negra a ter um projeto autoral na TV Globo

por | julho 21, 2023

Primeira roteirista negra a ter um projeto autoral na TV Globo, Cleissa Regina Martins é um desses talentos que usam os espaços conquistados para visibilizar outras pessoas pretas. Através do Prêmio Next, promovido pela fundação holandesa Prince Claus Fund, Cleissa conseguiu lançar “Preto Tá Na Moda / Black is Fashionable”, série que acompanha os sonhos de alguns dos mais talentosos estilistas pretos. Os episódios vão ao ar pelo Canal Futura e Globoplay.

A autora, responsável pelos sucessos “Juntos a Magia Acontece” (2019) e “Juntos a Magia Acontece 2” (2021), o primeiro especial de Natal a ter uma família negra como protagonista, integra um movimento importante onde os pretos lideram a contação de histórias. “Então, a gente ainda está engatinhando nessas discussões e a gente acaba focando em quem tá na frente da câmera, mas quem escreve e dita direção da história são os roteiristas e diretores, né? Eu acho que a gente tem tido no audiovisual essa discussão de precisarmos ter salas de roteiro mais diversas”, aponta a escritora. 

Cleissa explica que, em muitos casos, uma sala de roteiro tem apenas uma pessoa negra e isso não é suficiente para modificar a ordem atual das coisas em relação à inclusão e diversidade. Isso incide diretamente no resultado final até do elenco escolhido. “Para mim foi muito importante ter feito os especiais de Natal, principalmente o primeiro, porque tem o meu perfil, é muito autoral. Era para Rede Globo mas eu conseguia tomar decisões importantes graças à parceria muito grande que eu tive com a diretora do primeiro especial, a Maria de Médicis. Eu pude opinar até na escalação e fez toda a diferença porque para mim era muito importante a gente ter no núcleo infantil crianças diferentes entre si”, revela.

Tem um produto de sucesso  que tem a sala de roteiro muito diversa e eu gosto de usar como exemplo. “Vai na Fé”, eu acho que tem três pessoas negras na sala de roteiro, então acho que eles estão olhando para o lugar certo. Está dando muito certo tanto a frente como atrás das câmeras

 

EP4-2023-06-23-19h35m47s917.jpg

Tenka Dara

A idealização de ‘Preto Tá na Moda’ começou em 2018, quando Cleissa foi fazer um trabalho com a renomada escritora e intelectual Conceição Evaristo e acabou conhecendo  figurinista Maíra Barroso, que levou um vestido da designer negra Ângela Brito, nascida em Cabo Verde mas radicada no Brasil. A roteirista se encantou com um universo até então pouco conhecido dos estilistas pretos. “Surgiu a ideia e eu quis entender quem é que estava fazendo, quem eram as pessoas pretas que estavam no ramo da moda. Eu pensei ‘caramba, deve ser muito difícil ser uma pessoa negra fazendo moda’,  porque é uma coisa uma coisa super elitizada, que você precisa financiar os desfiles e tudo mais, então é uma coisa que gira muita grana e depende de muito investimento, é uma outra perspectiva para pessoas negras sem grana”.

Gravada em 2021 entre o Rio e São Paulo, Cleissa conseguiu entrevistar nomes importantes que compuseram os episódios. O elenco conta com  Hisan Silva e Pedro Batalha (Moda pra Todos os Corpos); Jal Vieira (Moda Feita de Gente); Isaac Silva (Moda com Axé); Tenka Dara (Moda que Conecta); Diego Gama (Moda é Forma); Izabella Suzart (Moda nos Pés); Weider Silveiro (Moda é Paixão); e Angela Brito (Moda é Individualidade). 

EP1-2023-06-23-13h56m35s562.jpg

Hisan Silva e Pedro Batalha, criadores da “Dendezeiro”

“E eu fico feliz de saber que todo mundo que eu falei estão fazendo só semanas de moda, estão na ativa. Estava todo mundo muito seguro por conta da pandemia, foi difícil para marcas menores se manterem nessa fase, mas todo mundo tá aí bombando muito, então apesar do tempo eles continuam e é muito bom”, comemora Cleissa que entende o lugar de liderança dos próprios projetos como uma vitória dos estilistas.

Embora o “Preto Tá na Moda” seja muito recente, a autora já pensa em possíveis roteiros, como algo para mostrar pessoas pretas das artes plásticas. Ainda que entenda que falar sobre negros no mundo das artes é uma coisa nichada, Cleissa sabe que alguém precisqa fazer e tem a energia bem-vinda de se propor. “Muitas vezes a gente não entende e não sabe as possibilidades que a gente tem, então ver essas referências traz repertório, ver pessoas pretas fazendo essas coisas é incrível, então acho que minha vontade é grande de usar o audiovisual para mostrar jovens negros criando e provar fazer outros pensarem que também podem fazer”, conclui.

0 comentários


– ÚLTIMOS VIDEOS –


– ÚLTIMAS NOTÍCIAS –