Teatro Oficina comemora 65 anos com nova temporada do espetáculo “Mutação de Apoteose”

por | abril 11, 2024

Com direção de Camila Mota, a peça enaltece a capacidade do teatro de criar mundos e reexistir a uma ordem vigente. Apresentações acontecem entre 12 de abril e 9 de junho

Cacilda Becker encarna Euclides da Cunha e conduz o público por uma viagem fantástica às eras geológicas e teatrais e suas insurreições. Esse é o ponto de partida de “Mutação de Apoteose” , espetáculo que celebra as mais de seis décadas do Teatro Oficina. Com direção de Camila Mota , o trabalho fica em cartaz entre os dias 12 de abril e 9 de junho, com sessões às sextas e aos sábados, às 20h, e, aos domingos, às 18h, na sede da companhia, no Bixiga . O espetáculo é uma ode à linguagem do teatro de coros da Cia e conta com homenagens à sua ancestralidade na dramaturgia.

A dramaturgia, assinada por Cafira Zoé, é formada por textos inéditos e considerada um desdobramento das obras “Os Sertões” e “Odisseia Cacilda”, de Zé Celso e Teatro Oficina Uzyna Uzona, forjando uma obra singular. A peça também reúne trechos de obras de Catherine Hirsch, Euclides da Cunha, Fernando Coimbra, Marcelo Drummond, Tommy Pietra e Zé Celso.

“A pentalogia de Os Sertões , em cartaz entre 2000 e 2007, moldou a subjetividade e a linguagem do Oficina. Foi justamente a partir dessas peças que incorporamos o coro em quase todos os nossos trabalhos. Nossa equipe passou a ser ainda mais diversa, com pessoas de várias idades, formações e recebimentos de lugares diferentes da cidade. Mudamos, inclusive, nossos horários de ensaio, para contracenar com os horários de todo o coletivo. Por isso, é tão importante para nós voltarmos a esse trabalho, dando a ele outro significado, a partir daqui agora”, afirma Camila.

Odá Silva, Cyro Morais e Alex de Tata em cena de Mutação de Apoteose / Crédito: Buriti Fotografia

Esse encontro de gerações também contribuiu para a relação entre Euclides da Cunha e Cacilda Becker nesta montagem. De acordo com Camila Mota, passar por Cacilda Becker como fundamento da 5ª dentição da Universidade Antropófaga (prática de troca e transmissão de conhecimentos do grupo) teve grande impacto nos atores e atrizes mais jovens e, portanto, faz sentido promover a união entre esses personagens importantes para a história do Oficina.

Com “Mutação de Apoteose”, Camila Mota se tornou a primeira mulher a dirigir um trabalho de grandes proporções do grupo – abrindo caminho para novas superfícies. São mais de 60 intérpretes em cena e 100 pessoas na ficha técnica. “Novos caminhos estão se abrindo para o Teatro Oficina, com muitos de nós sentindo vontade de dirigir. Essa peça foi encenada pela primeira vez em 2022 e, desde então, já ocorreu de Marília Piraju e Mayara Baptista em outros ritos e encenações da companhia”, comenta a encenadora.

Foto: Divulgação

Teatro como re existência

A peça é uma ode ao teatro e ao seu poder de invenção de mundos; e usa a ficção especulativa para criar modos de vida impensáveis – uma maneira de enaltecer outras imagens, corpos e narrativas, propiciando uma nova imaginação coletiva.

O musical simboliza o Teatro Oficina efervescente de novo. É, como diz a diretora, “um retorno à ancestralidade do teatro de coros, de multidões, de tragicomédiaorgya, de carnaval e ópera eletrocandomblaica no terreyro eletrônico”. É também um atiçamento de flechas para o futuro, promovendo o encontro de muitas gerações, subjetividades, gêneros, raças/etnias e forças.

Sobre a encenação

Dividida em dois atos, a obra oferece ao público duas experiências diferentes. “A primeira parte é a Oficina das multidões: festa, alegria, muitos núcleos, como um grande ritual coletivo, um Carnaval. O primeiro ato apresenta o território e suas lutas. Após o intervalo, partimos para uma encenação mais desenhada, com um rigor estético-poético mais refinado. É uma Oficina hackeando o chamado teatro contemporâneo global, numa encenação que se relaciona de outra maneira com o tempo. O segundo ato é uma espécie de feira de ciências, onde tecnologias de diferentes povos são postas em contracenação, desestabilizando o supremacismo de uma suposta ciência universal”, conta Camila.

De acordo com Cafira Zoé, dramaturga, o primeiro ato está diretamente relacionado ao livro “Os Sertões”, de Euclides de Cunha, mais especificamente ao capítulo “A Terra”. “A mutação de apoteose se refere a uma insurreição da terra, um comparecido pelo autor em Canudos. Ele ficou sabendo porque, de repente, aconteceu uma grande chuva em meio aquele cenário árido e imediatamente um deserto começa a se regenerar e se transforma num vale fértil”, acrescenta.

Foto: Divulgação

“É como se o Teatro Oficina e Canudos estão intimamente ligados. O espaço icônico da rua Jaceguai, 520, transforma-se, mais uma vez, em um território de luta, um assentamento de teatro. A cosmogonia do espetáculo clama pela criação do Parque do Rio Bixiga”, completa.

No segundo ato, o foco está em desarmar os algoritmos coloniais. O pensamento supremacista do século XIX, revelado no livro de Euclides da Cunha, está presente na programação de tecnologias hoje, como uma maneira de perpetuar a ordem vigente. Desvendar em cena essa programação, encarnada na inteligência artificial, é fundamental para atiçar as forças coletivas de reviravolta e insurreição da vida. Na montagem, o ator Marcelo Drummond dá vida à inteligência artificial.

Ao final, uma inteligência ancestral lança uma flecha em direção ao futuro, que está aqui e agora, desde já. “Mutação de Apoteose” dialoga muito com o teatro de Zé Celso. No Oficina, encenamos a tragédia, mas sempre dá perspectiva da viração, do desmassacre, da alegria guerreira, do teatro como uma tecnologia de não ressentir, não se assombrar pela diferença, de não ficar recalcando nada. Com ‘Mutação’ a gente radicaliza o ponto de virada, na reviravolta, na fabulação de futuros, afinal, o que virá depois do fim do patriarcado, do racismo, dos supremacismos? É preciso imaginar, com o teatro, outros mundos, outras origens de mundo, outras memórias para outros futuros, imaginar e criar, imaginar e fazer”, reflete Cafira.

A quem é dado o direito de inventar mundos? Quais origens do mundo conhecemos? Que mitos são nossos inconscientes coloniais? Que outros mundos já existem entre nós? Imaginar um mundo é desejo ou privilégio? Essas são algumas perguntas que a dramaturgia nos faz. A imaginação de tudo importante. Sistemas políticos de dominação foram imaginados, desejados e ficcionados ao longo de séculos por modos de vida supremacistas e seguiram retroalimentados por eles. O teatro é uma tecnologia de invenção de mundos. “Nós pensamos na fabulação como prática de vitalidade, friccionando mundos dentro e fora de nós na produção de imagens, corpos, narrativas, forjando nova imaginação coletiva. ‘Mutação de Apoteose’ coloca o teatro no epicentro da especificação de invenção de modos de vida que existem às inúmeras formas de massacre colonial, desse e de outros tempos”, conclui Cafira.

Foto: Divulgação

Sinopse

Terceiro sinal, CaciIda Becker se prepara para encarnar Euclides da Cunha, devorado, estraçado, parindo uma Cacilda Cósmica que viaja em uma odisseia onírica pelas Eras geológicas e teatrais. “mutação de apoteose” conta uma história de travessias e metamorfoses. É o teatro em estado de feitiçaria, é uma f(r)icção cósmica que contracena personagens humanos, não humanos, elementos e forças da natureza, seres encantados, oceano cretáceo e inteligência artificial, criando uma bomba de imaginação. São algoritmos antigos de insurreição da terra criando atmosferas de linha direta com o público, em contracenação com um algoritmo colonial. Com direção de Camila Mota e dramaturgia de Cafira Zoé, “mutação de apoteose” é um spin-off vertiginoso criado a partir das dramaturgias de “Os Sertões” e “Odisseia CaciIda”, de José Celso Martinez Correa e Teat(r)o Oficina , com cenas inéditas e outras paragens, comemorando os 65 anos da Cia e a direção de Camila Mota, primeira mulher a dirigir um espetáculo do Oficina, abrindo caminhos para outras possibilidades, como de Marília Piraju e Mayara Baptista, em ritos e shows encenados. Com 100 pessoas na ficha técnica girando a máquina dessa uzyna, “mutação de apoteose” é um espetáculo musical em 2 atos, um acontecimento feiticeiro que opera o terreyro eletrônico na sua potência máxima, permitindo lançar estados de mutação de apoteose dentro e fora de nós .

AGENDA

Mutação de Apoteose

Espetáculo musical em 2 atos

Duração: 2h30 (com 1 intervalo)

12 DE ABRIL A 09 DE JUNHO de 2024

Sexta a Sábado, às 20h

Domingos, às 18h

Teatro Oficina

Rua Jaceguai, 520 – Bixiga, São Paulo, SP
Classificação: 14 anos

Entradas: Inteira R$ 100,00 e Meia R$ 50,00

Venda antecipada com lotes promocionais de R$20,00 a R$90,00

https://bileto.sympla.com.br/event/82726

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