“O samba precisa continuar sendo uma referência negra”: Falamos com Martinho da Vila em entrevista exclusiva sobre o mais novo disco

por | maio 25, 2023

Aos 85 anos de idade, Martinho da Vila segue produzindo com a sagacidade já conhecida de quem acompanha a história do samba brasileiro. História essa que se confunde com a trajetória do cantor e compositor. Neste mês de maio, Martinho entregou mais um capítulo da sua obra poética para a música brasileira em “Negra Ópera”, álbum dramático que evoca as angústias de uma ópera misturadas às narrativas do samba.

O sambista não pensava em lançar mais um disco inteiro, visto sua extensa discografia, mas sua gravadora, a Sony Music, achou que seria uma boa ideia para que pudessem trabalhar algumas faixas que estavam na gaveta do músico. Então, ele aceitou a empreitada desde que pudesse explorar um pouco do drama de algumas pérolas de sua lista de composições. “Eles me incentivaram, pediram para fazer um disco inteiro que aí a gente fica com mais opção de música para botar no ar, aí eu pensei ‘vou fazer algo diferente’. Eu lembrei de ópera folheando um livro que eu escrevi chamado ‘Ópera Negra’ e falei ‘vou fazer uma coisa por aí’. Fui trabalhando e tal e acabou que eu consegui fazer. Ficou maneiro, eu gostei do resultado, coisa nossa, coisa de negro”, conta satisfeito

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Foto: Leo Aversa

Martinho explicou que outra motivação para gravar o “Negra Ópera” foi seguir oferecendo dentro da indústria uma referência negra. Para o músico, a mídia continua colocando em evidência uma profusão de referências brancas e para ele “o samba precisa continuar sendo uma referência negra”.

Em “Negra Ópera”, Martinho recupera canções há muito guardadas e outras inéditas para compor um lamento sobre morte, amor, liberdade e celebração da força negra em figuras como Zumbi, a mãe solteira e outros personagens tão folclóricos da história preta brasileira, que oferecem lições de força mesmo em situações de desventura. Porém, ao contrário do que se pode pensar, o sambista não é de ter tantas músicas escondidas. “Eu não tenho muitas músicas guardadas.Eu fui gravando muitos discos, então eu gravei quase todas as músicas que fiz, inclusive essas que estão aí, tirando a ‘Diacuí’. As canções inéditas são mais recentes”, explica.

Em conversação direta com o que acontece no mundo, o novo trabalho acaba vindo em um momento em que os debates sobre pautas negras ganham força em um governo novo e progressista, o que para o artista carioca é simbólico. “Eu vi que ele (Bolsonaro) era uma referência muito ruim, mal educado, grosso, racista, homofóbico, tudo misturado. Nós passamos um período terrível e agora a alegria está de volta”, comemora.

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Martinho da Vila em terras portuguesas para realizar show da turnê europeia

Logo após o lançamento do disco, Martinho da Vila  fez shows esgotados em São Paulo e como um jovem em começo de carreira, a euforia em sua voz se faz presente ao saber que muitas pessoas têm interesse em sua música. “Acho bom quando está lotado. A troca de energia é muito boa”, conta o compositor que  pretende fazer excursão pela Europa em países como Portugal, Inglaterra, Alemanha e França.

Perguntei a ele se ele imaginava chegar aos 85 anos de idade como uma lenda da música e produzindo álbuns e a satisfação em sua expressão foi notória em responder que não imaginava porque, quando começou, não via muita gente chegando aos 60 em alta produtividade e que “hoje em dia, 60 anos é ser um gatinho” e, de fato, como o próprio diz, sua voz está tão boa como quando gravou o clássico disco homônimo de 1969.

“Para cantar bem uma música, a gente tem que incorporar o tema. E aí falando essas coisas pesadas fica difícil, mas aí a gente é artista e a gente dá um jeito, a gente consegue, né? Então é muito pesado o show que eu vou começar, mas vou  permear as canções do disco novo com as velhas, mais leves, mas sem cortar o diálogo entre os temas”

Martinho da Vila pensa em como seria ter as antigas e clássicas canções regravadas com técnica mais avançada de estúdio, mas não se arrepende de nada que gravou porque tem orgulho de sua trajetória e sabe que o que fez foi com máxima excelência. Inclusive sobre o novo trabalho, a lenda é incisiva: Eu estou  satisfeito com o trabalho e eu acho que as pessoas que me acompanham vão gostar bastante porque, embora a abordagem seja muito dramática, a forma que eu gravei é enxuta, recuperando aquela sonoridade com pouco músicos, então ficou uma coisa bonita”, conclui.

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